Durante toda nossa história podemos ver e rever diferentes tragédias frutos da ignorância, do preconceito, da aversão ao outro. Ainda assim, o tempo e a experiência parecem não ter sido capaz de nos ensinar aonde podemos chegar com nossa intolerância; avançamos em nossas ideias e junto com nossas feridas oriundas da segunda grande guerra um paradigma emerge: o preconceito virou uma ideia politicamente incorreta, a intolerância virou um conceito indesejado, mal quisto. Tudo isso é razão de comemoração, no entanto parece que nos falta um olhar mais aguçado pois se o julgamento sobre a questão mudou numa perspectiva coletiva, a mesma transformação não se verificou no plano individual. Tomo como um exemplo prático o Brasil, nosso país abomina qualquer atitude ou menção preconceituosa quando ela se manifesta na esfera pública, na mídia, ficamos conhecidos mundialmente como exemplo de tolerância, de convivência pacifica com o outro, sobre o mito da tal democracia racial construímos nossa identidade nacional, mas no nosso intimo, no nosso circulo social e nos números das pesquisas o que observamos são situações cotidianas, dados estatísticos que esfregam em nossas caras o tamanho de nossa hipocrisia: Somos sim um país racista.
Semana passada o IBGE divulgou outra pesquisa que nos deu um triste resultado, 63,7 % dos brasileiros acreditam que a raça influencia na vida das pessoas e o aspecto que ela mais interfere é o mercado de trabalho. Tal fator não deveria ser motivo de surpresa, os negros ocupam a base social do Brasil, seus salários são menores que os brancos, são a maioria dos presos no país, tem em geral menos anos de estudo, são os reflexos sentidos até hoje por anos de escravidão e principalmente da forma como se deu o processo abolicionista no Brasil, que os concedeu liberdade jurídica, mas os protegia de domínios econômicos e sociais que sucederam, os negros deixaram de serem tratados como mercadoria mas continuavam em cativeiro. Negar essa realidade parece ter sido a tática usada pelo estado de modo geral o que em nada colabora para melhorarmos essa condição de inferioridade social, avançamos a passos lentos para uma melhora, a diferença nos salários caiu, mas ainda é de 46% (Clique aqui e veja a reportagem do GI)
Em 2008 o Pnad demonstrou que a maioria da população brasileira se considera negra
A discriminação não é produto exclusivo brasileiro, recentemente uma pesquisa da Pew Research Center foi divulgada nos EUA como durante a crise a distancia dos salários entre negros e latinos para os brancos subiu assustadoramente, esse últimos ganham até vinte vezes mais que os primeiros. A pesquisa vai além mostrando como os homens estão sendo preferencialmente demitido das empresas; a razão não seria propriamente uma maior competência e preparo do sexo feminino- que tem se mostrado mais empenho em aumentar seus anos de estudo, já sendo maioria nas faculdades- mas sim o fato de que a mulher recebe menos que os homens para exercer a mesma função, logo a empresa demite o sexo masculino e contrata o feminino como forma de cortar gasto, constatação impressionante e demonstração clara como a discriminação baseada no gênero ainda se encontra presente apesar da revolução feminina do século XX. A mulher é independente, vota, estuda, trabalha e mesmo assim ainda é inferiorizada perto de uma figura feminina afinal quando será que virá o tal Renascimento feminino aguardado pelo historiador no livro O Homem Renascentista? Bem, nós mulheres estamos na luta por ele, sonhamos com ele e são os devaneios humanos que saem nossas maiores descobertas, nossas grandes conquistas.
Tão assustador quando dos dados apresentados acima foi o fato ocorrido na Europa, um jovem que matou 76 pessoas e tudo isso justificado em cima de sua ideia do que seria Europa, em uma forma de protesto pela incorporação de quem ele considera ser inimigos dos europeus, o islã que estaria invadindo o continente e maculando a cultura e a raça pura europeia. Se os atos são sem dúvida frutos de uma loucura e incapacidade de sentir empatia com outro ser humano, não podemos dizer o mesmo de suas ideias que estão longe de serem consideradas devaneios por uma considerável parcela da população. A extrema direita não é privilégio americano ela tem chegado ao poder no velho mundo seja de forma mais direta seja pelo flerte que a direita mais moderada tem tido com essas ideias no intuito de agregar votos. Com a crise econômica emergiu um forte sentimento de xenofobia, a culpa da falta de emprego recaem sobre os imigrantes , o nacionalismo parece voltar com força e se ele tem o aspecto positivo- gostar da nação onde se nasce faz com que as pessoas lutem por sua constante melhora- pode trazer também seu aspecto negativo para não dizer perigoso se lembramos que o sentimento nacional, de construção identitária está fortemente ligado a demarcação de diferença com o outro, a constatação da diferença não nos traria problemas se ela não estivesse frequentemente ligado a uma ideia de superioridade, onde o nós está acima dos outros. Não faz muito tempo, do começo para o meio do século XX descobrimos onde essa idéia somada a uma crise econômica pode nos levar, no entanto permanecemos brincando com esse perigo num cenário ligeiramente parecido. Agora nos resta lutar pelo que sempre nos faltou: tolerância ao diferente, ou restaurar em toda sua plenitude conceitos que vieram à tona com a revolução francesa e que virou paradigma para o mundo ocidental: Liberdade, Igualdade e Fraternidade e dessa vez que seja para todos e não apenas para uma parcela.
Marianne: Mulher Símbolo da Revolução Francesa
Para terminar de forma diferente: porque será que a imagem feminina é usada enquanto alegoria de tantos valores, ela é o símbolo da justiça, da república, da democracia, da nação? Qual seria o significado de tantos simbolismo?


"constatação impressionante e demonstração clara como a discriminação baseada no gênero ainda se encontra presente apesar da revolução feminina do século XX"
ResponderExcluirNão deveria ser assim, mas não acho que isso seja questão de preconceito de discriminação de gênero. É um dado bruto e lógico, se pensarmos com a lógica de quem está interessado em contratar funcionários. Se vc tem uma lista de opções e vê que os homens, em certos casos, preferem estudar mais e ingressar depois no mercdo, e as mulheres fazem o contrário, ou seja, não se qualificam tanto e tal...e podem se dedicar mais ao trabalo...bom, não há razões em si ligadas ao gênero, é uma questão de disponibilidade e de praticidade para o contratante. Além disso, algumas pesquisas mostram que há sim preconceito, mas em alguns pontos essa diferença entre homens e mulheres é resultado das próprias escolhas que ambos os sexos fazem para suas vidas. As mulheres, estatiticamente falando, optam por não serem promovidas em seus empregos quando isso significa que elas terão que passar mais horas longe de casa, longe de seus filhos. A maioria quer arranjar alguma forma de contrabalançar a necessidade de ter que ganhar seu próprio dinheiro e ao mesmo tempo, cuidar de seus filhos. E isso resulta em duas coisas: ou elas se submatem à lógica da necessidade financeira e vivem se culpando por não passarem tempo suficiente com seus filhos ou não se adequam a essa norma de mercado e optam por empregos de meio período, com menores salários, recusam promoções e etc. O que, friamente falando, é um despedício, já que as mulheres, estatisticamente falando, tem o desempenho muito melhor do que os homens no período escolar e tal. Ou seja, não é uma questão de potencial, é uma questão de como as contingências do ambiente forçam ambos os sexos a tomarem escolhas diferentes. Claro, isso é um lado do problema, não negando que há o preconceito em outros casos.
Felipe eu nas coisas que eu ando lendo diz justamente o contrário o nivel da leitura e estudo das mulheres está cada vez maior em relação aos homens.
ResponderExcluirEm relação a idéia que as mulheres optam por cuidar dos filhos...pode ser que seja verdade,mas eu sinceramente nunca li nada sobre isso portanto não posso discutir,mas no caos eu me referia as pesquisas que demonstram que as mulheres que exercem as mesmas funções dos homens acabam recebendo mesmo....isso é sim questão de gênero. E para ver que não é coincidência em um dos links que coloquei no post mulheres negras tem os menores salários...isso certamente não é coincidência
Eu não disse que é questão de coincidência, só disse que o motivo pelo qual as mulheres ganham menos NEM SEMPRE é machismo do empregador.
ResponderExcluirE sobre as mulheres serem mais instruídas...sim, também já li sobre isso. Mas eu to falando especificamente sobre o mercado de trabalho, não sobre o nível de instrução. Vc pode se especializar de maneira absurda, ser estudada pra caraca mas ainda sim optar por não ser promovida se isso te axigir mais horas no trabalho em detrimento das horas que vc passa com seus filhos. E esses estudos também mostram que esse tipo de relação é estatisticamente maior em países desenvolvidos do que nos em desenvolvimento. Inclusive, nos países em desenvolvimento as mulheres optam preponderantemente para áreas como psicologia, assistência social, ou seja, áreas mais comunicativas, que dê a oportunidade de lidar com pessoas, e não com coisas. Já nos países em desenvolvimento essa relação é bem menor, provavelmente por causa da menor condição de escolha de uma profissão que a gente realmente goste. A maioria acaba escolhendo uma que dê dinheiro e pronto. ENfim...tem um livro que fala sobre esses pontos: O Paradoxo Sexual, da psicóloga Suzan Pinker.