quinta-feira, 28 de julho de 2011

Discriminação: A mais antiga ignorância humana


                Durante toda nossa história podemos ver e rever diferentes tragédias frutos da ignorância, do preconceito, da aversão ao outro.  Ainda assim, o tempo e a experiência parecem não ter sido capaz de nos ensinar aonde podemos chegar com nossa intolerância; avançamos em nossas ideias e junto com nossas feridas oriundas da segunda grande guerra um paradigma emerge: o preconceito virou uma ideia politicamente incorreta, a intolerância virou um conceito indesejado, mal quisto. Tudo isso é razão de comemoração, no entanto parece que nos falta um olhar mais aguçado pois se o julgamento sobre a questão mudou numa perspectiva coletiva,  a mesma transformação não se verificou no plano individual. Tomo como um exemplo prático o Brasil, nosso país abomina qualquer atitude ou menção preconceituosa quando ela se manifesta na esfera pública, na mídia, ficamos conhecidos mundialmente como exemplo de tolerância, de convivência pacifica com o outro, sobre o mito da tal democracia racial construímos nossa identidade nacional, mas no nosso intimo, no nosso circulo social e nos números das pesquisas o que observamos são situações cotidianas, dados estatísticos que esfregam em nossas caras o tamanho de nossa hipocrisia: Somos sim um país racista.

      
  Semana passada o IBGE divulgou outra pesquisa que nos deu um triste resultado, 63,7 % dos brasileiros acreditam que a raça influencia na vida das pessoas e o aspecto que ela mais interfere é o mercado de trabalho.  Tal fator não deveria ser motivo de surpresa, os negros ocupam a base social do Brasil, seus salários são menores que os brancos, são a maioria dos presos no país, tem em geral menos anos de estudo, são os reflexos sentidos até hoje por anos de escravidão e principalmente da forma como se deu o processo abolicionista no Brasil, que os concedeu liberdade jurídica, mas os protegia de domínios econômicos e sociais que sucederam, os negros deixaram de serem tratados como mercadoria mas continuavam em cativeiro. Negar essa realidade parece ter sido a tática usada pelo estado de modo geral o que em nada colabora para melhorarmos essa condição de inferioridade social, avançamos a passos lentos para uma melhora, a diferença nos salários caiu, mas ainda é de 46% (Clique aqui e veja a reportagem do GI)

Em 2008 o Pnad demonstrou que a maioria da população brasileira se considera negra

                A discriminação não é produto exclusivo brasileiro, recentemente uma pesquisa da Pew Research Center foi divulgada nos EUA como durante a crise a distancia dos salários entre negros e latinos para os brancos subiu assustadoramente, esse últimos ganham até vinte vezes mais que os primeiros. A pesquisa vai além mostrando como os homens estão sendo preferencialmente demitido das empresas; a razão não seria propriamente uma maior competência e preparo do sexo feminino- que tem se mostrado mais empenho em aumentar seus anos de estudo, já sendo maioria nas faculdades- mas sim o fato de que a mulher recebe menos que os homens para exercer a mesma função, logo a empresa demite o sexo masculino e contrata o feminino como forma de cortar gasto, constatação impressionante e demonstração clara como a discriminação baseada no gênero ainda se encontra presente apesar da revolução feminina do século XX. A mulher é independente, vota, estuda, trabalha e mesmo assim ainda é inferiorizada perto de uma figura feminina afinal quando será que virá o tal Renascimento feminino aguardado pelo historiador no livro O Homem Renascentista? Bem, nós mulheres estamos na luta por ele, sonhamos com ele e são os devaneios humanos que saem nossas maiores descobertas, nossas grandes conquistas.
                Tão assustador quando dos dados apresentados acima foi  o fato ocorrido na Europa, um jovem que matou 76 pessoas e tudo isso justificado em cima de sua ideia do que seria Europa, em uma forma de protesto pela incorporação de quem ele considera ser inimigos dos europeus, o islã que estaria invadindo o continente e maculando a cultura e a raça pura europeia. Se os atos são sem dúvida frutos de uma loucura e incapacidade de sentir empatia com outro ser humano, não podemos dizer o mesmo de suas ideias que estão longe de serem consideradas devaneios por uma considerável parcela da população. A extrema direita não é privilégio americano ela tem chegado ao poder no velho mundo seja de forma mais direta seja pelo flerte que a direita mais moderada tem tido com essas ideias no intuito de agregar votos. Com a crise econômica emergiu um forte sentimento de xenofobia, a culpa da falta de emprego recaem sobre os imigrantes , o nacionalismo parece voltar com força e se ele tem o aspecto positivo- gostar da nação onde se nasce faz com que as pessoas lutem por sua constante melhora- pode trazer também seu aspecto negativo para não dizer perigoso se lembramos que o sentimento nacional, de construção identitária está fortemente ligado a demarcação de diferença com o outro, a constatação da diferença não nos traria problemas se ela não estivesse frequentemente ligado a uma ideia de superioridade, onde o nós está acima dos outros. Não faz muito tempo, do começo para o meio do século XX descobrimos onde essa idéia somada a uma crise econômica pode nos levar, no entanto permanecemos brincando com esse perigo num cenário ligeiramente parecido. Agora nos resta lutar pelo que sempre nos faltou: tolerância ao diferente, ou restaurar em toda sua plenitude conceitos que vieram à tona com a revolução francesa e que virou paradigma para o mundo ocidental: Liberdade, Igualdade e Fraternidade e dessa vez que seja para todos e não apenas para uma parcela.

Marianne: Mulher Símbolo da Revolução Francesa

Para terminar de forma diferente: porque será que a imagem feminina é usada enquanto alegoria de tantos valores, ela é o símbolo da justiça, da república, da democracia, da nação? Qual seria o significado de tantos simbolismo?

sábado, 23 de julho de 2011

A Copa de 2014 e o sonho brasileiro

                O Brasil se apaixonou pelo futebol antes de aprender a gostar de si mesmo, tal amor sempre moveu o sonho de voltar a sediar uma Copa do Mundo. Em 2007 o anuncio da FIFA tornou o sonho dos brasileiros possível, mas parece que tudo isso pode se tornar pesadelo. A conta das obras da Copa do Mundo estão nas alturas, somente a reforma do Maracanã custará um bilhão de reais aos cofres públicos e nos devolverá um estádio novo completamente diferente do velho Maraca, que abrigou durante tanto tempo nossa paixão pelo futebol, a alma carioca, a paixão de nossas torcidas, uma parte importante da nossa identidade. Sim, a Copa do mundo tem seu charme, durante tempos abrigou nossos sonhos, mas o quanto vale a pena pagar para tê-la?
           
                                                                   Foto da Reforma do Maracanã

Em São Paulo, o estádio do Corinthians contará com isenções fiscais já aprovadas pelos vereadores e sancionadas pelo prefeito e com o dinheiro do governo estadual que custeará a ampliação na capacidade de público. Em Natal a construção da arena se quer começaram, as obras ligadas a infra-estrutura e mobilidade da cidade também não foram iniciadas devido a divida da prefeitura com o governo federal e segundo o Portal 2014 o município tentará um pedido de “excepcionalidade” junto ao ministério da fazendo; a cidade é considerada a sede mais atrasada. O retrato traçado para a Copa não é bom obras atrasadas, serviço aéreo beirando o caos, custos subindo em proporções estratosféricas, segundo  o UOL em maio os valores cresceram em 1,7 bilhões de reais (observe o aumente em cada sede clicando aqui).Muitos se preocupam se iremos passar vergonha, bom se a eles se referem a um medo das obras não estarem concluídas eu devo tranquiliza-los isso não ocorrerá caros, tudo deverá estar no lugar como o projeto, eu me preocupo mais com a vergonha que estamos passando hoje, com orçamentos crescendo sem parar, estádios custando o dobro de outras partes do mundo, será que nossos operários e nosso cimento são tão mais caros assim? Eu diria que nossas ilusões estão se diluindo e pouco a pouco iremos desejar não mais estar dormindo junto aos nossos sonhos, mas acordar rápido desse pesadelo.  

A dívida americana e a tormenta no epicentro do capitalismo mundial

Em 2008 assistimos a uma crise que começou no setor imobiliário americano ganhando proporções mundiais e varrendo do mapa bancos tradicionais. Desde então observamos os governos intervindo na economia,  implementando programas de socorro, chegando a se tornar o principal acionista de algumas instituições financeiras; manobra que poderíamos chamar de estatização se não se tratasse de países como os EUA, defensores históricos da auto-regulação econômica, da participação mínima do estado, dos ideais neoliberais como um todo. Toda essa engenharia financeira usada no intuito de alavancar a economia implicou em um alto custo financeiro, o aumento da divida dos países; fator que poderia estar relativamente balanceados se o pacote tivesse surtido o efeito desejado sobre os indicadores econômicos , o que não ocorreu. Observamos países como Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, Grécia e os próprios EUA com um alto grau de endividamento, o que tem causado turbulências no mundo financeiro. Observando o gráfico da revista The Economist notamos como o endividamento americano cresce desde os anos oitenta, mas que no governo Bush que implementa a Guerra ao Terror a divida aumenta de forma espantosa, se até então as guerras costumavam alavancar a economia americana, sua última investida levou o país a um das mais serias crises econômicas da sua história. 



Para dar conta desses problemas assistimos a uma corrida europeia no intuito de impedir o calote da Grécia e o arranjo realizado possibilitou que isso ocorresse de forma parcial, o que diminuiu os lucros dos investidores sem acarretar numa nova crise dessa vez iniciada na região do Euro. Nos EUA, a disputa ocorre no poder legislativo, se tenta elevar o teto da dívida americana para assim impedir a paralisia do governo e o pagamento dos investidores, se aproveitamento dessa questão delicada e da posição minoritária do governo no congresso a extrema direita força pela diminuição do tamanho do estado, exige cortes sociais do governo democrata e se opõe a elevação da tributação sobre os mais ricos proposta pelo presidente.
Parece que voltamos a velha discussão sobre a intervenção ou não dos governos na economia, de fato nesse abismo econômico vivido pelo mundo em 2008 a solução partiu dos estados nacionais que interviram nos setores privados, propuseram algumas medidas que visavam regular mais o mercado, deu ajuda econômica a grupos financeiros que os salvaram da falência, mas parece que tais medidas não foram o suficiente em alguns países e há resistência para a continuidade de tais pacotes, a intervenção do governo teve um efeito direto nas contas públicas e a posição ideológica da direita americana a faz votar contra o aumento do endividamento do país. Em contramão a essa ideia observamos como a população, em especial a mais pobre sofre com cortes no orçamento oriundos de medidas austeras.
É esse impasse que vive a política americana vive e os olhos do mundo de novo estão voltados ela, uma moratória da maior economia do planeta traria consequências incalculáveis para todos, inclusive para o Brasil, quarto maior credor dos EUA. Algo desse tipo acontecer parece que não é nem cogitado pelos especialistas e seria algo inédito na história americana. De acordo com o historiador Leandro Karnal especialista em EUA “Para o bem e para o mal, o destino do planeta está associado aos Estados Unidos da América” ; talvez estejamos perto de comprovar tal afirmação.